Avançar para o conteúdo principal

Playlist "À Lareira"



Fica desde já o reconhecimento da culpa. Sim, as minhas playlists são incoerentes; uma espécie de patchwork musical - mas é assim que eu gosto delas. Não é só a busca do eclético. É sobretudo a forma como a minha mente musical (presunçoso!) está organizada. Ouço música com a pele e a pele, como nós sabemos, é dos órgãos mais difíceis de controlar pelo cérebro. Por isso, o elo condutor é quase sempre um sentimento, um ambiente, uma imagem, que provavelmente dirá sempre muito mais a mim do que àqueles que possam ouvir a música que juntei.

Esta é para estes dias de chuva, frio e necessidade de conforto. É para estar à frente da lareira (ou de um sucedâneo) a pensar nas coisas que realmente importam na vida - o amor, em todas as suas formas, as convicções, a busca da felicidade e, no meu caso, um bom vinho tinto.

Por exemplo, o piano de "To Build a Home", dos Cinematic Orchestra, é conforto e proteção. A voz, áspera e negra, de Johnny Cash é a melancolia atada à consciência, enquanto as vozes, cristalinas mas tristes das irmãs Soderberg, das First Aid Kit, inquietam de outra forma, como um gemido de dor. E depois chega aquele por-de-sol de Inverno, na voz de Karen Carpenter (sim, porque eles são para lá de bons!), escondendo numa lírica de esperança e felicidade toda uma vida de depressão e excesso.

Faz sentido? Para mim faz.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

John Barry, "Indecent Proposal Theme"

Depois de vos ter revelado a importância que tem a banda sonora de Merry Christmas, Mr. Lawrence para a minha sanidade mental, fiquei a pensar que o filme que está na sua origem não me diz nada. Vi-o, nem sei bem quando, e nunca mais pensei nele. Julgo que até o achei enfadonho e um pouco incómodo. Já com a banda sonora foi diferente. Acontece-me muito. Filmes marcantes com más bandas sonoras e, ainda mais frequentemente, filmes banais ou mesmo maus com grandes bandas sonoras. É esse o caso de "Proposta Indecente", de Adrian Lyne (1993), com Robert Redford e Demi Moore. O filme é ridículo. A banda sonora, particularmente a sua componente instrumental, é brutal! Nem sequer consigo imaginar como é que John Barry resolveu aceitar musicar um filme em que um milionário paga um milhão de dólares para passar a noite com a mulher de um coitado de um arquitecto, mas ainda bem que o fez, porque criou uma cenário musical belíssimo e justificou, por si só, o dinheiro que investira...

Primeiro Dia de Vida

O primeiro dia de vida de um blog não precisa de ser uma ocasião solene, mas, sendo este um espaço exclusivamente dedicado à música, merece uma banda sonora que funcione como uma declaração de princípios. Daí este "First Day of My Life", em que Conor Oberst canta "juro que nasci à saída da porta". Este é um blog que nasceu de um (como se diz agora) "burn out" das redes sociais. Depois de todas as polémicas, barbaridades, insultos e falsas notícias, resta a música e o que dela podemos retirar. Aqui não há feeds inundados de trolls, preces à virgem Maria, anúncios selecionados por algoritmos ou vídeos de senhoras gordas que tropeçam junto a piscinas de borracha, nos quintais dos subúrbios de Louisville, Kentucky. Partimos da música e com ela vamos aonde tiver de ser. Não trabalhamos com filtros. O momento, o contexto, a disposição e, por vezes, os recursos, tão simplesmente, serão as únicas condicionantes. Não trabalhamos com calendário. O tempo é ...

MGMT - Little Dark Age

O Tiago Ribeiro já me tinha dito, mas eu, com a mania de que não há álbum como o primeiro, nunca mais gostei de nenhum disco dos MGMT desde 'Oracular Spectacular'. Porque prezo muito a opinião musical do Tiago, decidi dar uma margem de três audições integrais a "Little Dark Age" e fazer de conta de que se trata do primeiro álbum de uma banda nova. Ainda não sei se o Tiago tem razão. O novo dos MGMT é, a espaços, muito bonito, mas também é chato e confuso. Ainda tenho muitas dúvidas de que seja o regresso em definitivo depois de umas viagens mal conseguidas à estratosfera psicadélica. Estão incomodados com a tirania dos telemóveis e das redes sociais, e não gostam da Administração Trump. Ok, admito que isso possa funcionar do ponto de vista criativo, mas não percebo muito bem o tom geral da coisa.  Segundo os próprios, as chaves do álbum estão em canções como "TSLMP" ou "Days that Got Away", mas eu aposto tudo em "James", or...